Eis que faço coisa nova:
Deus agindo no cenário da impossibilidade
A promessa nasce em meio ao juízo e ao exílio babilônico, não em um cenário favorável.
Texto base:
(Isaías 43:13-21)
Soberania absoluta de Deus (v.13-15)
(13) "Desde os dias mais antigos eu o sou. Não há quem possa livrar alguém de minha mão. Agindo eu quem pode desfazer?
(14) Assim diz o Senhor, o seu Redentor, o Santo de Israel: "Por amor de vocês mandarei inimigos para a Babilônia e farei todos os babilônios descerem como fugitivos, nos navios de que se orgulhavam.
(15) Eu sou o Senhor, o Santo de vocês, o Criador de Israel e o seu Rei.
Memória do agir passado (Êxodo - v.16-17)
(16) Assim diz o Senhor, aquele que fez um caminho pelo mar, uma vereda pelas águas violentas,
(17) que fez saírem juntos os carros e cavalos, o exército e seus reforços, e eles jazem ali, para nunca mais se levantarem, exterminados, apagados como um pavio:
Convite a não viver preso ao passado (v.18)
(18) Esqueçam o que se foi; não vivam no passado.
Anúncio do novo agir de Deus (v.19)
(19) Vejam, estou fazendo uma coisa nova! Ela já está surgindo! Vocês não o percebem? Até no deserto vou abrir um caminho e riachos no ermo.
Provisão contínua no caminho (v.19-20)
(20) Os animais do campo me honrarão, os chacais e as corujas, porque fornecerei água no deserto e riachos no ermo, para dar de beber a meu povo, meu escolhido,
Propósito final: louvor e adoração (v.21)
(21) ao povo que formei para mim mesmo a fim de que proclamasse o meu louvor"."
Introdução:
O povo de Israel vivia um dos momentos mais sombrios de sua história. Encontrava-se no exílio babilônico, distante da terra prometida, sem templo, sem autonomia política e com o profundo sentimento de que Deus havia se afastado. As grandes obras do passado - especialmente o livramento do Êxodo - ainda eram lembradas, mas contrastavam dolorosamente com o presente árido e opressor. A realidade parecia afirmar que não havia mais saída, nem esperança de redenção.
É exatamente nesse cenário de desalento que Deus decide falar ao Seu povo. Por meio do profeta, o Senhor deixa claro que Sua ação não está limitada às experiências anteriores. Ele chama Israel a não permanecer aprisionado ao ontem, porque o Deus que agiu no passado continua soberanamente ativo no presente. Mesmo no “deserto” do exílio babilônico, Deus anuncia que está iniciando algo novo: um novo livramento, um novo caminho e uma nova provisão.
Em Isaías 43:16-17, o Senhor relembra as grandes obras realizadas outrora - o Deus que abriu o mar e derrotou os inimigos. Contudo, Ele também deixa evidente que Sua fidelidade não está restrita ao que já foi feito. O mesmo Deus que abriu caminho nas águas promete agora abrir caminho no deserto.
Essa palavra revela uma verdade central: a impossibilidade humana jamais constitui um obstáculo para Deus. Quando tudo parece estéril, sem direção e sem esperança, o Senhor se revela como plenamente soberano, fiel às Suas promessas e continuamente ativo com todo o Seu poder redentor.
A progressão do agir redentor de Deus no exílio babilônico:
1) Libertação da fé aprisionada ao passado:
(Isaías 43:18) "Esqueçam o que se foi; não vivam no passado.
- Deus faz uma exortação direta ao Seu povo.
O chamado divino não conduz à ingratidão nem ao esquecimento das obras de Deus, mas adverte contra uma fé presa às formas antigas do Seu agir. O povo havia engessado o Êxodo, esperando que Deus sempre repetisse os mesmos métodos, e isso limitou sua percepção espiritual. O problema não era a ausência da ação divina, mas a incapacidade de reconhecê-la em nova forma. Assim, antes de abrir novos caminhos externos, Deus chama Seu povo a uma libertação interior, para que possa discernir, confiar e responder ao novo agir redentor que Ele já estava realizando.
Complementar:
Nos versículos 16-17, o Senhor relembra intencionalmente o livramento do Êxodo, quando abriu um caminho pelo mar e aniquilou completamente as forças inimigas, demonstrando Seu domínio absoluto sobre aquilo que, aos olhos humanos, era intransponível. A referência ao mar não é apenas histórica, mas teológica: Deus recorda um ato decisivo de salvação para afirmar que nenhum obstáculo pode resistir à Sua vontade soberana.
Entretanto, o contexto agora é outro. O povo não se encontra diante de águas ameaçadoras, mas imerso no cenário prolongado e desgastante do exílio babiônico, simbolizado pelo deserto - um lugar de escassez, incerteza e ausência de perspectivas humanas. A libertação já não se daria por meio de um livramento imediato e pontual, mas exigiria a sustentação constante e fiel de Deus ao longo de uma jornada prolongada e espiritualmente desafiadora.
Ao anunciar que abriria um caminho no deserto, Deus ensina que Seu poder não se limita a um único tipo de intervenção. Aquele que outrora abriu o mar para uma saída imediata é o mesmo que agora prepara um caminho contínuo, adequado a uma jornada longa. Assim, a comparação entre o mar e o deserto revela que Deus age de forma perfeitamente ajustada às necessidades do Seu povo, seja vencendo obstáculos repentinos, seja sustentando-o com fidelidade em processos prolongados.
2) Deus nos chama a discernir o novo que Ele está fazendo:
(Isaías 43:19a) Vejam,
- Expressão enfática de atenção divina.
Usada quando Deus anuncia uma ação soberana decisiva (Isaías 65:17).
- Não é sugestão, é decreto divino.
estou fazendo
- Indica ação em andamento, não apenas futura.
- A obra já havia começado, ainda que não fosse claramente visível.
Deus já iniciou o cumprimento, mesmo que invisível aos olhos humanos.
uma coisa nova!
Isso não significa algo separado do que Deus já havia feito antes, mas uma forma nova e renovada de agir. É o próprio Deus intervindo novamente para salvar e restaurar o Seu povo.
A declaração divina indica que Deus estava iniciando uma nova obra de salvação. Ele não estava rompendo com o passado, mas dando continuidade às Suas promessas, agora de uma forma diferente e adequada à realidade do exílio babilônico. A ação divina já estava em andamento, mesmo que seus efeitos ainda não fossem plenamente percebidos pelo povo.
Deus afirma que já estava agindo, preparando um novo livramento para Israel, assim como fizera no passado, porém agora dentro do contexto do exílio e da aparente impossibilidade.
Complementar:
O pano de fundo é:
- O povo experimentando juízo divino.
- A sensação de abandono.
- A memória do Êxodo (Isaías 43:16-17).
Deus anuncia que fará algo semelhante ao Êxodo, mas de uma maneira nova, trazendo um novo livramento ao Seu povo em meio ao exílio.
Ela já está surgindo!
- Indica algo que Deus plantou e que inevitavelmente crescerá.
O verbo utilizado comunica a ideia de algo que começa a brotar gradualmente. A obra de Deus já estava em progresso, ainda que invisível aos olhos naturais. Muitas vezes, o Senhor inicia o livramento muito antes de ele se tornar evidente para todos.
Vocês não o percebem?
- Percebem: conhecer, discernir.
A pergunta revela que o problema não era a ausência da ação divina, mas a incapacidade espiritual do povo de discernir o agir de Deus em seu estágio inicial. Israel esperava que Deus repetisse exatamente os feitos do passado e, por isso, tinha dificuldade de reconhecer a nova maneira pela qual o Senhor estava cumprindo Suas promessas.
Aplicação prática:
- Muitas vezes Deus já está agindo, mas nossa atenção permanece presa ao que Ele fez no passado.
- Quando nos apegamos excessivamente às experiências anteriores, corremos o risco de não perceber o agir de Deus no presente.
- Discernir o novo que Deus faz exige fé viva, sensibilidade espiritual e confiança em Seu caráter imutável.
- Antes de Deus transformar as circunstâncias externas, Ele trabalha para abrir os olhos espirituais do Seu povo.
3) Deus abre caminho onde não existia caminho:
(Isaías 43:19b) Até no deserto
- O deserto simboliza a ausência de recursos, de direção e de esperança humana.
vou abrir
- A iniciativa é totalmente de Deus.
O livramento não procede da força humana, mas da intervenção soberana do Senhor, que cria o caminho e conduz Seu povo mesmo em situações impossíveis.
um caminho
Quando, aos olhos humanos, não há saída, Deus demonstra Seu poder abrindo um caminho onde nunca existiu.
Aplicação prática:
- Onde para nós tudo parece impossível, Deus vê uma oportunidade para manifestar o Seu poder.
- O deserto não é sinal do abandono de Deus; muitas vezes, é exatamente ali que Ele se revela com maior clareza.
- Deus não depende de caminhos já prontos, de recursos humanos ou de circunstâncias favoráveis para agir.
- Quando não existe saída visível, Deus não apenas encontra um caminho - Ele cria o caminho.
4) Deus supre vida e renovação no lugar da escassez:
(Isaías 43:19c) e riachos no ermo.
- Riachos: o plural enfatiza abundância, suficiência e renovação contínua.
- Ermo: representa um lugar seco, estéril e sem possibilidade natural de vida.
Ao prometer “riachos” no ermo, Deus afirma que não apenas conduzirá Seu povo para fora do exílio, mas também suprirá tudo o que for necessário ao longo do caminho. A imagem não descreve uma provisão momentânea, mas uma fonte constante de sustento e renovação.
Deus não age de maneira incompleta. Ele não apenas abre o caminho, mas garante vida durante toda a jornada.
- Onde havia escassez, Ele faz fluir abundância;
- onde não havia recursos, Ele mesmo se torna a fonte.
Deus não depende das condições do ambiente; Ele é poderoso para transformar escassez em abundância.
Aplicação prática:
- Deus não apenas abre o caminho, mas também sustenta Seu povo enquanto ele caminha.
- Onde havia escassez, cansaço e falta de esperança, Deus traz refrigério e renovação.
- A provisão de Deus nunca está separada do Seu propósito; Ele supre exatamente o que é necessário para cumprir o que prometeu.
- O Deus que cria o caminho é o mesmo que sustenta toda a jornada.
Conclusão:
Ao longo da história, Deus não age apenas para tirar o Seu povo da crise, do cativeiro ou do sofrimento, mas para revelar a Sua glória por meio de um povo que Ele mesmo criou, salvou e restaurou. Em Isaías 43, o Senhor mostra que primeiro vem a redenção, e a adoração é a resposta natural daqueles que foram redimidos.
O próprio Deus declara o propósito da Sua obra:
- (Isaías 43:21) “Ao povo que formei para mim mesmo, para que proclamasse o meu louvor."
Isso nos ensina que:
- Deus nos restaura para Si, não para nós mesmos;
- Ele nos liberta não apenas do cativeiro, mas para a adoração verdadeira;
- A salvação produz um povo que vive para proclamar quem Deus é e o que Ele fez.
Essa verdade encontra seu pleno cumprimento em Cristo, que nos resgatou não apenas do exílio espiritual do pecado, mas nos constituiu “para o louvor da Sua glória” (Efésios 1:12). Portanto, a vida cristã não é centrada em experiências, mas em exaltar o Redentor com palavras, obras e obediência.
Aplicação final:
Se fomos formados e redimidos por Deus, então:
- Nossa vida deve glorificá-Lo em tudo;
- Nossa adoração deve ser sincera, obediente e centrada em Cristo;
- Nossa missão é proclamar o Seu louvor com os lábios e com a vida.
Deus restaura um povo para que o Seu nome seja conhecido, exaltado e adorado.
Graça e paz,
Pra. Angela Caldas.